O que a PEC 18 da Segurança não obriga, o que ela permite e o que ela esconde ?













Há duas perguntas que a PEC da Segurança Pública não respondeu, e é nelas que este texto se concentra.

A primeira é sobre o que ela deixou de fazer: obrigar o preso a trabalhar, devolver à sociedade algum retorno pelo custo de alimentação, alojamento e segurança. A segunda é sobre o que ela permitiu sem dizer em voz alta: entregar a prefeitos o comando de uma força armada, criar uma nova despesa permanente em municípios que não têm receita, e rebaixar as polícias militares a um papel secundário — tudo isso sem que o cidadão tenha sido chamado a discutir.

A PEC foi aprovada em 3 de novembro de 2026, com 73 e 75 votos, sem nenhum contrário. Consenso absoluto em matéria de segurança pública é, por si só, um sinal de alerta. Não porque o texto seja necessariamente ruim, mas porque consenso sem debate costuma esconder custos que ninguém quis explicitar.

Este texto organiza as críticas em cinco frentes. Não é um texto contra a descentralização. É um texto contra a descentralização feita sem dinheiro, sem controle e sem transparência.



O presídio que não trabalha: a omissão que custa caro !

A PEC mexeu na estrutura do sistema prisional. Criou o Sistema de Políticas Penais, definiu as polícias penais como órgãos civis de carreira, atribuiu funções de custódia, disciplina e reeducação. Não criou, porém, nenhuma obrigação de trabalho prisional. Nenhuma colônia penal. Nenhum programa nacional. Nenhuma vinculação orçamentária para oficinas, instrutores ou escoamento de produção.

O argumento técnico é que a matéria já está na Lei de Execução Penal, que prevê o trabalho como dever do preso. Isso é verdade no papel. Na prática, é falso.

A taxa de ocupação do sistema prisional brasileiro gira em torno de 160% a 170% da capacidade. Em unidades superlotadas não há espaço físico para oficina, não há instrutor suficiente e não há demanda produtiva que absorva a mão de obra. O trabalho, embora previsto como dever, é privilégio de uma minoria selecionada por comportamento, escolaridade e, em alguns casos, por proximidade com a administração da unidade.

O resultado é o que o cidadão sente no bolso e na sensação de insegurança. O país gasta cerca de R$ 5 bilhões por ano para manter pessoas presas em ócio forçado e universidades ou escolas do crime. A sociedade paga alimentação, alojamento, segurança e saúde de quem não produz nada, não estuda e não se qualifica. E recebe de volta, com frequência, a mesma pessoa — agora com mais vínculo com a facção que a recrutou dentro do presídio do que com qualquer perspectiva de trabalho fora dele.

Há uma incoerência que precisa ser dita com clareza. O art. 144-B da PEC, ao criar o regime especial para facções e milícias, prevê expressamente a restrição ou proibição da remição da pena por estudo ou trabalho. Ou seja: para o público-alvo do regime especial, a PEC retirou o único incentivo concreto ao trabalho. Para os demais presos, não criou nenhum. O resultado é um sistema prisional que não pune com trabalho e não ressocializa com trabalho. Pune com ócio.

Quem defende a PEC dirá que constitucionalizar trabalho obrigatório criaria risco de trabalho forçado, vedado pela Constituição e pela Convenção 29 da OIT. O argumento é legítimo. Mas ele não justifica a omissão total. Uma emenda que criou o Sistema de Políticas Penais poderia ter criado, no mesmo dispositivo, um programa nacional de trabalho prisional com remuneração, jornada, segurança e finalidade educativa — exatamente as balizas que afastam a caracterização de trabalho forçado. Não criou. E não criou porque a pauta política era outra.



Corrupção com dinheiro público: a categoria que o Brasil ainda não criou !

A PEC não trata de corrupção. Não trata de crime contra a humanidade. Não trata de inafiançabilidade para desvio de recurso público.

Este é o ponto em que a crítica precisa ser mais dura, porque é o ponto em que o país fracassa há décadas.

O Brasil convive com um paradoxo. Prende-se em flagrante por furto de alimento. Não se prende, ou se prende com benefícios processuais sucessivos, quem desviou recursos de hospital, de escola, de obra de saneamento. O desvio de dinheiro público não mata uma pessoa de imediato, mas mata milhares ao longo de anos, ao negar leito, remédio, água tratada e escola. É violência lenta, distribuída e estatisticamente invisível.

Há um debate jurídico real sobre a expressão "crime contra a humanidade". No direito internacional, o conceito tem definição fechada no Estatuto de Roma: ataque generalizado ou sistemático contra população civil, com dolo de cometer tais atos. Corrupção em larga escala, praticada de forma sistemática e com resultado letal sobre serviços essenciais, é argumento que parte da doutrina sustenta — mas não é consenso, e o Brasil não tipificou a figura.

O que se pode afirmar com segurança é outra coisa: o ordenamento brasileiro trata o desvio de recurso público com uma leniência que não se repete em nenhum outro tipo penal de gravidade equivalente. Progressão de regime, substituição por pena restritiva, acordos de colaboração que resultam em não condenação, prescrição por morosidade processual. O corrupto que desviou milhões frequentemente cumpre pena menor, em tempo menor, do que o autor de um roubo com arma.

A crítica, portanto, não é que a PEC deveria ter criado um tipo penal novo. É que o Congresso, ao aprovar uma emenda constitucional inteira sobre segurança pública, escolheu endurecer o regime contra facções e milícias — e não contra o desvio de dinheiro público. A escolha revela prioridade. E a prioridade revela a quem o sistema serve.



O pacto federativo e o dinheiro que sobe e não desce:

Aqui está a falha mais concreta da PEC, e a mais fácil de demonstrar com números.

A União concentra a arrecadação. Os municípios dependem de transferências. O Fundo de Participação dos Municípios é a principal fonte de receita de cerca de 4.500 dos 5.570 municípios brasileiros. Receita própria relevante — IPTU, ISS, ITBI — existe de forma significativa apenas em capitais e em cidades médias com economia consolidada.

A PEC exige, como condição para criar polícia municipal, "capacidade financeira por meio de receita própria, compatível com a manutenção da corporação". É um filtro elegante e silencioso. Ele não diz "municípios pobres não podem ter polícia". Produz exatamente esse efeito, sem que ninguém precise assumir o discurso.

Uma corporação mínima viável, com 40 a 60 agentes, custa entre R$ 4 milhões e R$ 7 milhões por ano em pessoal e custeio, e entre R$ 6 milhões e R$ 10 milhões de implantação. Em municípios de 20 mil a 50 mil habitantes, esse valor frequentemente supera a receita própria total do município. Não é escolha política. É impossibilidade contábil.

Para municípios médios, entre 100 mil e 300 mil habitantes, a equação é possível, mas perversa. A receita própria existe, porém já está comprometida com pisos constitucionais de saúde e educação, com a folha do funcionalismo e com a previdência. Criar polícia significa comprimir outra política pública. O município que cria polícia municipal está, na prática, decidindo tirar dinheiro de escola, posto de saúde ou saneamento. Isso raramente é dito em voz alta durante o debate eleitoral.

E há o custo de oportunidade, que é o mais perverso de todos. Polícia é despesa de pessoal permanente, com carreira, progressão, direito adquirido e pressão corporativa anual por reajuste. Uma vez criada, desfazer é politicamente impossível. O município que cria sem base fiscal estável cria uma obrigação de longo prazo que, no limite, será socorrida pelo estado ou pela União — socializando o prejuízo e privatizando o benefício político de quem criou.

O pacto federativo, portanto, é desrespeitado em duas direções. Primeiro, porque a União impõe aos municípios uma competência sem transferir a receita correspondente. Segundo, porque o dinheiro que sobe na forma de tributo não desce na forma de capacidade de investimento. A PEC não enfrentou isso. E a lei regulamentadora também não enfrentará, porque o problema é anterior a ela.


As polícias militares: desaparecimento ou perda de poder ?

A PEC não extingue as polícias militares. Mantém a competência estadual sobre policiamento ostensivo e preserva expressamente a subordinação aos governadores. Mas reduz seu espaço institucional de forma significativa, e é preciso dizer isso sem eufemismo.

O primeiro golpe é o mais visível: a autorização para polícias municipais retira das PMs o monopólio do policiamento ostensivo em áreas urbanas. Em municípios que criarem corporação própria, a PM passa a atuar de forma residual ou concorrente, com risco permanente de conflito de atribuição na rua.

O segundo é mais sutil e mais grave: a PEC permite que qualquer órgão de segurança — inclusive polícia militar ou municipal — encaminhe diretamente ao Judiciário o registro de infrações de menor potencial ofensivo, sem passar antes pela polícia civil. A medida reduz burocracia, mas fragmenta o fluxo de informação criminal, que é a base de qualquer política de inteligência.

O terceiro é de financiamento. Os fundos constitucionais passam a ter repasse obrigatório de 50% a estados e municípios. Isso significa que a PM disputará o mesmo bolo com centenas de corporações municipais novas. Menos recursos por corporação, mais pulverização.

Há ainda o efeito de carreira. Uma PM estadual oferece plano de carreira, previdência própria e estrutura de formação. Uma polícia municipal pequena oferece emprego, mas não carreira. O risco é de esvaziamento das melhores quadros das PMs em direção a corporações municipais em municípios ricos, e de concentração de efetivo de menor qualificação nos estados mais pobres.

A pergunta sobre "desaparecimento" é, portanto, mal formulada. As PMs não vão desaparecer. Vão perder exclusividade, recursos e centralidade. E vão conviver com um novo ator armado no mesmo território, sem que a PEC tenha definido regra clara de coordenação entre eles.


O prefeito como comandante: o xerife que a PEC não impediu !

Este é o ponto mais sensível, e exige precisão.

A PEC não cria a figura do "xerife". Não confere ao prefeito poder de polícia, não o nomeia comandante, não lhe dá foro especial. O que a PEC faz é permitir a criação de uma força armada municipal e não definir o regime de comando, os limites de atuação e os mecanismos de controle. É a ausência que cria o risco, não a previsão.

Uma polícia municipal é uma força armada cujo comandante será nomeado por quem? A PEC não diz. A lei futura dirá. E é exatamente aí que o problema começa.

Nas polícias militares há uma camada intermediária — o governador, o secretário estadual, a corregedoria estadual, o Ministério Público estadual — que dilui o comando direto. Numa polícia municipal de 60 agentes em cidade de 80 mil habitantes, essa distância praticamente desaparece. O prefeito conhece o comandante pelo nome, almoça com ele, deve favores a ele.

O prefeito que controla a polícia municipal acumula poder de nomeação administrativa, poder orçamentário, poder de fiscalização urbanística, poder de licenciamento e, agora, poder de força. Em municípios onde a política é personalista — e são a maioria — isso configura um arranjo pré-republicano. A comparação com as guardas do Império, feita no plenário da Câmara pelo deputado Chico Alencar, não é retórica barata: é descrição histórica precisa de um modelo em que o poder armado local servia ao senhor local.

Os contrapesos previstos são frágeis. A acreditação pelo conselho estadual depende de regulamentação inexistente e de um conselho que, em vários estados, é órgão consultivo sem estrutura técnica. O controle externo do Ministério Público existe, mas o MP tem capacidade limitada de auditar dezenas de corporações simultaneamente. E não há, no texto aprovado, nenhum dispositivo que exija publicação de dados de abordagem, uso da força, letalidade ou reclamações contra agentes.

Sem transparência, não há controle social. Sem controle social, a força armada local será o que o incentivo político determinar que ela seja.


Será possível criticar os superprefeitos ?

A pergunta é a mais importante do texto, porque é a que menos se discute.

Em tese, sim. Crítica é liberdade constitucionalmente protegida. Na prática, a resposta depende de três variáveis que a PEC não resolveu.

A primeira é a assimetria de informação. Uma corporação municipal controla dados de abordagem, ocorrência, uso da força e letalidade. Se esses dados não são públicos, a crítica fica no terreno da suspeita, sem prova. E suspeita não sustenta denúncia, não sustenta ação civil pública, não sustenta reportagem investigativa.

A segunda é a assimetria de capacidade coercitiva. Criticar um prefeito que comanda uma força armada é diferente de criticar um prefeito que comanda uma secretaria de obras. O risco não é a represália formal — é a informal: a abordagem na porta de casa, a multa de trânsito recorrente, a fiscalização de estabelecimento comercial do crítico, o "aviso" dado por um agente à paisana. Nada disso é prova. Tudo isso é intimidação.

A terceira é a fragilidade da imprensa local. Em municípios pequenos, o veículo de comunicação frequentemente depende de publicidade oficial. O prefeito que controla a polícia controla também o ambiente em que a crítica circula. Não por censura formal, mas por incentivo econômico.

Há um agravante que precisa ser nomeado: em municípios onde a política é dominada por grupos familiares, a polícia municipal pode se tornar aparato privado de proteção patrimonial e política. A história brasileira tem exemplos suficientes de guardas municipais usadas em conflito fundiário, em disputa comercial e em perseguição a adversário. Multiplicar corporações multiplica a superfície desse risco.

A crítica será possível onde houver imprensa livre, conselho atuante, MP estruturado e corregedoria independente. Onde não houver, ela será formalmente permitida e materialmente inviável.


O que outros autores já apontaram:

O debate público registrou críticas consistentes, e vale reuni-las sem atribuição indevida.

A crítica criminológica sustenta que suprimir progressão de regime, remição e saída temporária retira do condenado qualquer incentivo ao comportamento disciplinado e à ressocialização. O resultado previsível é superlotação de presídios de máxima segurança, judicialização em massa e um sistema penal de duas velocidades, sem porta de saída. A comparação com o modelo salvadorenho foi feita explicitamente no plenário da Câmara.

A crítica federativa aponta que a PEC impõe obrigação de despesa aos entes subnacionais sem transferência correspondente, agravando a crise fiscal dos municípios e ampliando a dependência de emendas parlamentares — que não são política pública, são favor político.

A crítica institucional alerta para a fragmentação do sistema: em vez de 27 polícias militares estaduais, o país pode caminhar para centenas de corporações municipais com padrões distintos de formação, armamento, protocolo e dados. A diretriz de interoperabilidade existe no papel; integrar 500 sistemas é outra história.

A crítica constitucional aponta que a restrição a poderes regulatórios do CNJ, presente na versão da Câmara, viola a separação dos Poderes e afronta cláusula pétrea. A redação final do Senado precisa ser conferida com atenção neste ponto.

A crítica semântica observa que o termo "defesa social" entrou na Constituição sem definição. Pode ser lido na chave positivista — defender a sociedade do criminoso — ou na chave clássica — proteger o indivíduo do arbítrio estatal. A escolha interpretativa não é neutra e determinará o sentido de toda a legislação futura.

A crítica corporativa registra que a PEC não criou piso nacional para policiais, demanda antiga das categorias, e que o endurecimento penal não veio acompanhado de valorização profissional.



 A indústria de multas reativada no nível local:

Há um efeito da PEC da Segurança Pública que ninguém colocou no debate público e que talvez seja o mais sentido no cotidiano do cidadão comum: a municipalização da fiscalização de trânsito como fonte de receita.

A PEC autoriza municípios a criar polícias municipais civis, com policiamento ostensivo e comunitário. Não menciona trânsito. Mas a estrutura que ela viabiliza — agente uniformizado, com poder de abordagem, poder de autuação e presença permanente na rua — é exatamente a estrutura que o município precisa para multiplicar a fiscalização de trânsito. E a experiência brasileira mostra o que acontece quando essa estrutura encontra um orçamento apertado.

A crítica que este texto desenvolve é simples: a PEC não criou a indústria de multas, mas criou a capacidade operacional para reativá-la em escala local, sem ter criado nenhuma salvaguarda contra o uso arrecadatório.

O que a PEC permite, na prática:

A PEC não trata de trânsito. O Código de Trânsito Brasileiro já atribui aos municípios competência para fiscalizar, autuar e aplicar penalidades nas vias urbanas. O que faltava, em muitos municípios, era estrutura: efetivo, equipamento, sistema e presença.

A polícia municipal resolve exatamente isso. Ela dá ao prefeito uma força uniformizada, com autoridade de abordagem, que pode ser empregada em fiscalização de trânsito sem depender da guarda municipal existente nem da PM estadual.

E aqui está o ponto que precisa ser dito com clareza: a mesma corporação que o município cria para proteger o cidadão pode ser usada para multá-lo. Não há, no texto aprovado, nenhuma vedação ao uso da força municipal para fins arrecadatórios. Não há meta de produtividade vedada, não há limite de autuações por agente, não há exigência de publicação de dados de arrecadação com multas por via e por turno.

O incentivo perverso que ninguém enfrentou:

A aritmética municipal é cruel. O município que cria uma polícia assume despesa permanente de pessoal — entre R$ 4 milhões e R$ 12 milhões por ano, dependendo do porte. A receita própria é limitada. E a multa de trânsito é uma das poucas fontes de receita que o município controla integralmente: ele autua, ele arrecada, ele não divide com o estado nem com a União.

O resultado é um incentivo estrutural que não precisa de má-fé para operar. Basta que a secretaria de fazenda apresente o déficit, que a corporação apresente o custo, e que alguém faça a conta: quantas multas por dia cobrem a folha?

Não é especulação. É o modelo que já opera em diversas cidades brasileiras, onde a fiscalização eletrônica se concentra em vias de alta velocidade e boa sinalização — não nas áreas de maior risco de acidente. O critério não é segurança viária. É volume de autuação.

O impacto no cotidiano:

Para o motorista. A multa de trânsito no Brasil não é um valor simbólico. Uma infração grave custa R$ 195,23 e cinco pontos na carteira. Uma gravíssima com fator multiplicador chega a R$ 1.467,35. Para o trabalhador que usa o carro para sobreviver — motorista de aplicativo, entregador, taxista, representante comercial — a multa não é aborrecimento: é perda de renda do mês.

E há um agravante que a PEC não resolve. A fiscalização municipal tende a se concentrar onde há retorno, não onde há risco. O resultado é que o motorista de baixa renda, que circula em vias periféricas mal sinalizadas, é autuado por infração que a má sinalização produziu. A responsabilidade do poder público pela via é transferida ao cidadão na forma de multa.

Para o pedestre. Aqui está a ironia mais amarga. A fiscalização que protege o pedestre é a que pune o excesso de velocidade em área escolar, o avanço de sinal, a parada sobre a faixa. Essa fiscalização não gera receita relevante, porque o volume de autuações é baixo. A fiscalização que gera receita é a de velocidade em via expressa bem sinalizada, onde o condutor não tem defesa técnica. Na prática, o município que precisa de caixa fiscaliza o que rende, não o que salva. E quem morre no trânsito brasileiro é, majoritariamente, pedestre e motociclista de periferia.

Para a relação entre autoridade e cidadão. Este é o custo mais duradouro. Quando o agente municipal é percebido como arrecadador e não como protetor, a autoridade perde legitimidade. O cidadão deixa de cooperar, deixa de denunciar, deixa de confiar. E uma polícia que não tem confiança da população é uma polícia que depende exclusivamente da força — o que é o oposto de policiamento comunitário, que é exatamente o modelo que a PEC diz querer criar.


Conclusão

A PEC 18/2025 resolveu o problema da fragmentação institucional e não resolveu o problema do financiamento, do controle e da ressocialização. Essa é a síntese possível.

Ela constitucionalizou o sistema único, autorizou polícias municipais, criou regime penal mais rígido para facções e blindou os fundos de segurança. São avanços reais, e negá-los seria desonesto.

Mas a mesma emenda que autoriza o município a criar polícia exige dele uma receita própria que a estrutura tributária brasileira não lhe entrega. A mesma emenda que endurece o regime contra facções não criou nenhuma obrigação de trabalho prisional. A mesma emenda que cria força armada municipal não definiu mandato de comando, autonomia operacional, corregedoria independente nem transparência de dados. A mesma emenda que fala em cooperação federativa não enfrentou a concentração tributária que inviabiliza a cooperação.

Três conclusões merecem registro final.

A primeira é que a omissão sobre trabalho prisional é uma escolha, não um esquecimento. O Congresso teve a oportunidade de vincular a estrutura prisional a um programa nacional de trabalho, com remuneração, jornada e finalidade educativa — as balizas que afastam a caracterização de trabalho forçado. Não fez. Preferiu endurecer a pena e não tratar do que se faz dentro dela. E é dentro dela que se decide se a pessoa sai reintegrada ou recrutada.

A segunda é que a concentração tributária é o limite real da PEC. Enquanto a União concentrar a arrecadação e repartir por transferências, a autonomia municipal em segurança pública será retórica. Município que depende do FPM não tem margem fiscal para criar despesa permanente de pessoal armado.

A terceira é que o risco não é o prefeito em abstrato, é o prefeito sem contrapeso. Onde houver imprensa livre, conselho atuante, MP estruturado e corregedoria independente, a polícia municipal pode funcionar bem. Onde não houver, ela será o que o incentivo político determinar. E o incentivo político local, em municípios sem sociedade civil organizada, raramente aponta para o interesse público.

   A pergunta final não é se o município deve ter polícia. É se o município tem dinheiro para ter polícia que funcione, se o desenho institucional impede que ela sirva ao prefeito em vez de servir à população, e se o presídio vai continuar sendo depósito ou vai se tornar, finalmente, um lugar de onde se sai melhor do que se entrou.

   Hoje, a resposta honesta às três perguntas é: provavelmente não.

 Ad Bitencourt RozinOAB/RS 40725



PEC 18 da Segurança Pública e a função dos CONSEGS ( CONSELHOS )

Em 3 de novembro de 2026, o Senado Federal concluiu a votação da Proposta de Emenda à Constituição nº 18, de 2025, em dois turnos, por 73 votos no primeiro e 75 votos no segundo, sem nenhum voto contrário. O texto segue para promulgação e altera onze dispositivos da Constituição Federal, acrescenta dois artigos ao corpo permanente e três ao Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.

Para quem atua em conselhos de segurança pública — os CONSEGs municipais, os Conselhos Estaduais e o Conselho Nacional —, esta é a mudança mais relevante desde a Constituição de 1988. Não porque a PEC crie os conselhos, mas porque ela constitucionaliza o sistema em que eles operam, define competências que hoje são apenas legais e cria obrigações de transparência e participação que passarão a ter status constitucional.

Este texto tem três compromissos. O primeiro é a fidelidade: analise do texto efetivamente aprovado, não o projeto original do Executivo em cada ponto o que depende de lei futura. O segundo é a clareza: tradução do vocabulário constitucional para a linguagem de quem preside uma reunião de conselho municipal numa terça-feira à noite. O terceiro é a utilidade: cada seção termina com o que o conselho pode fazer, concretamente, a partir de agora.

Uma advertência metodológica antes de começar. O texto consolidado com as emendas do Senado ainda não foi publicado em versão final, e a promulgação não ocorreu na data deste texto. A análise abaixo se baseia nos relatórios das agências legislativas, no parecer da Comissão de Constituição e Justiça e no substitutivo aprovado. Para uso em peça processual ou parecer formal, recomendo conferir o Diário Oficial após a promulgação.


Resumo executivo:

O que a PEC faz, em uma frase: coloca na Constituição o Sistema Único de Segurança Pública, redistribui competências entre União, estados e municípios, autoriza a criação de polícias municipais, cria um regime penal mais rígido para facções e milícias e blinda o financiamento do setor.

Cinco mudanças que importam para os conselhos:

A primeira é a constitucionalização do SUSP. O sistema, hoje existente apenas pela Lei 13.675/2018, passa a ter base constitucional, com quatro diretrizes obrigatórias de cooperação: forças-tarefa intergovernamentais, interoperabilidade de sistemas, compartilhamento de informações e atuação articulada na produção de provas.

A segunda é a competência concorrente. União, estados e Distrito Federal passam a legislar conjuntamente sobre segurança pública e defesa social, forças-tarefa, formação e treinamento policial e sistema socioeducativo. Isso significa que os conselhos estaduais ganham um novo parâmetro de controle: a lei estadual precisa observar as normas gerais federais.

A terceira é a autorização para polícias municipais. Municípios poderão criar polícias civis de policiamento ostensivo e comunitário, mediante acreditação, capacidade financeira e formação padronizada. É a mudança com maior impacto direto nos CONSEGs.

A quarta é o regime especial para facções e milícias, com prisão obrigatória em segurança máxima, restrição de progressão de regime, liberdade provisória, saída temporária e remição, além de expropriação de bens.

A quinta é o financiamento blindado: FNSP e Funpen na Constituição, 50% de repasse obrigatório a estados e municípios, proteção contra contingenciamento e contra a DRU, e 10% do superávit do Fundo Social do pré-sal.

  O que ficou de fora: a redução da maioridade penal, a destinação de recursos das bets aos fundos e a vedação ao bloqueio orçamentário dos fundos.

  O que depende de lei futura ? praticamente todo o conteúdo operacional. O regime das facções, os critérios de acreditação das polícias municipais, as regras de compartilhamento de dados sigilosos e a estrutura de financiamento só existirão de fato quando o Congresso aprovar as leis regulamentadoras.



Análise comentada, dispositivo por dispositivo

Art. 5º — Direitos e garantias fundamentais

O que muda. O artigo que trata dos direitos individuais recebe acréscimo relacionado ao tratamento de dados e às garantias no processo penal.

Comentário. É o dispositivo de maior sensibilidade constitucional da PEC. Mexer no art. 5º significa mexer no núcleo das garantias individuais, que é cláusula pétrea. A leitura correta é restritiva: qualquer interpretação que amplie restrições a direitos além do texto expresso tende a ser questionada no Supremo.

Para os conselhos. Nenhuma atribuição direta. Mas é o dispositivo a citar quando o conselho receber denúncia de abuso em abordagem ou de tratamento indevido de dados de cidadãos.

Depende de regulamentação. Sim, quanto à operacionalização do tratamento de dados.

Art. 15 — Cassação de direitos políticos

O que muda. A PEC estabelece que, em qualquer caso de prisão provisória, o detido terá seus direitos políticos suspensos.

Comentário. A consequência prática é imediata: quem estiver preso provisoriamente não poderá votar. Isso inclui o preso em flagrante que aguarda audiência de custódia no dia da eleição. É uma mudança de efeito eleitoral concreto, com impacto logístico para a Justiça Eleitoral e para os presídios.

Para os conselhos. Nenhuma atribuição direta. Relevante apenas para conselhos que atuem em interface com política prisional.

Depende de regulamentação. Não para o efeito principal, que é autoaplicável.

Arts. 22, 23 e 24 — Repartição de competências

O que muda. O art. 22 (competência privativa da União) passa a incluir normas gerais de segurança pública, defesa social e sistema penitenciário, além de normas sobre atividade de inteligência. O art. 23 (competência comum) inclui a segurança pública entre as atribuições de todos os entes. O art. 24 (competência concorrente) passa a abranger forças-tarefa, parâmetros de formação e treinamento, garantias e deveres das polícias e guardas municipais e sistema socioeducativo.

Comentário. Este é o coração técnico da PEC. A distinção que importa: competência privativa da União significa que só a União legisla sobre normas gerais; competência concorrente significa que a União fixa normas gerais e os estados suplementam. Na prática, cria-se um piso nacional que as leis estaduais precisam respeitar.

Aqui está a controvérsia jurídica mais relevante da PEC. O termo "defesa social" entra na Constituição sem definição. Juristas criminalistas apontam a ambiguidade: pode ser lido na chave positivista, de defesa da sociedade contra o criminoso, ou na chave clássica, de proteção do indivíduo contra o arbítrio do poder punitivo. A escolha interpretativa não é neutra e determinará o sentido de toda a legislação futura.

Para os conselhos. Impacto direto nos Conselhos Estaduais. Toda lei estadual de segurança pública que verse sobre formação policial, forças-tarefa ou guardas municipais passa a ter que observar as normas gerais federais. O conselho estadual ganha um parâmetro técnico de análise: verificar compatibilidade com a norma geral da União.

Depende de regulamentação. Sim, integralmente. Sem a lei federal de normas gerais, o art. 22 não produz efeito prático.

Art. 40 — Aposentadoria

O que muda. Ajuste nas regras previdenciárias aplicáveis a agentes de segurança pública.

Comentário. Dispositivo de efeito corporativo, não de política pública. Relevante para categorias, não para a atuação dos conselhos.

Para os conselhos. Nenhuma atribuição.

Depende de regulamentação. Sim, para os critérios específicos.

Art. 49 e art. 84 — Competências do Congresso e do Presidente

O que muda. Ajustes nas competências do Congresso Nacional e do Presidente da República em matéria de segurança pública, incluindo a estruturação do órgão federal responsável pela área.

Comentário. É o dispositivo que viabiliza a criação do Ministério da Segurança Pública, pretendida pelo governo. A PEC abre caminho para que a pasta seja permanente, e não extinta por decreto presidencial. Para os conselhos, isso significa interlocução federal estável, com ministério dedicado em vez de secretaria vinculada a outro ministério.

Para os conselhos. Impacto institucional relevante: o Conselho Nacional de Segurança Pública e os conselhos estaduais passam a ter um interlocutor federal permanente.

Depende de regulamentação. Sim, para a criação efetiva da estrutura ministerial.

Art. 103-B e art. 130-A — CNJ e CNMP

O que muda. Ajustes nas competências do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público em matéria de segurança pública e sistema penitenciário.

Comentário. Este é um dos pontos mais polêmicos do texto aprovado. A versão da Câmara restringiu poderes regulatórios do CNJ, o que gerou acusação de violação à separação dos Poderes e de afronta a cláusula pétrea. O deputado Túlio Gadêlha (Rede-PE) chegou a afirmar que o relator pretendia "sustar atos do Poder Judiciário". A redação final do Senado precisa ser conferida com atenção neste ponto, porque a extensão da restrição é o que determinará se haverá questionamento de constitucionalidade.

Para os conselhos. Indireto, mas relevante: conselhos que atuam em interface com o sistema prisional passam a depender de como o CNJ exercerá sua competência regulatória sobre o tema.

Depende de regulamentação. Não; é norma de eficácia imediata, mas com alto risco de judicialização.

Art. 144 — Órgãos de segurança pública

O que muda. É o artigo central. A PEC reorganiza a lista de órgãos de segurança pública e redefine atribuições.

Polícias municipais. Municípios poderão criar polícias municipais civis, com policiamento ostensivo e comunitário, desde que cumpram quatro requisitos: acreditação periódica por conselho estadual de segurança pública, comprovação de capacidade financeira por receita própria, cumprimento integral da legislação das guardas municipais e formação conforme parâmetros nacionais básicos. Ficam sujeitas ao controle externo do Ministério Público.

Comentário. Esta é a mudança de maior impacto para os CONSEGs. Hoje o Supremo Tribunal Federal veda que municípios chamem suas guardas de polícias, por ausência de previsão constitucional. A PEC resolve a questão pela via constitucional, mas com condicionantes. O ponto crítico é a acreditação: quem acredita é o conselho estadual, não um sistema nacional. A deputada Maria do Rosário (PT-RS) defendeu creditação nacional, argumentando que a estadual compromete a padronização. A crítica mais dura veio do deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que comparou a medida às guardas do Império, controladas por coronéis locais.

Polícia Penal. Todas as polícias penais — federal, estaduais e distrital — são definidas como órgãos civis, estruturados em carreira, vinculados ao órgão administrador do sistema penal do respectivo ente. Atribuições: custódia, ordem, disciplina e segurança dos estabelecimentos penais.

Polícia Federal. Fica explícito que cabe à PF apurar crimes cometidos por organizações criminosas e milícias privadas de repercussão interestadual ou internacional, sem prejuízo das atribuições das polícias estaduais e do Ministério Público.

Polícia Rodoviária Federal. Mantém o nome — caiu a pretensão de rebatizá-la "polícia viária federal" — e ganha policiamento ostensivo de ferrovias e hidrovias federais, ressalvadas as competências das Forças Armadas em seus terrenos. Pode apoiar forças estaduais quando requisitada pelo governador.

Registro direto de infrações de menor potencial ofensivo. Qualquer órgão de segurança pública — inclusive polícia militar ou municipal — poderá encaminhar por sistema eletrônico integrado o registro de infrações de menor potencial ofensivo diretamente ao Judiciário, sem passar antes pela polícia civil. Também poderá conduzir à autoridade policial quem estiver em flagrante, cumprindo mandado de prisão ou descumprindo medida cautelar.

Comentário. Este último ponto é tecnicamente o mais inovador e o menos discutido. Ele rompe o monopólio da polícia civil sobre o registro inicial de ocorrências de menor potencial ofensivo. Na prática, reduz burocracia e tempo de atendimento ao cidadão, mas exige sistema integrado funcionando — o que hoje é a maior fragilidade operacional do setor.

Para os conselhos. Impacto máximo. Os CONSEGs passam a ter papel consultivo na decisão municipal de criar ou não polícia municipal, e os Conselhos Estaduais passam a ter competência de acreditação — uma atribuição nova, com efeito jurídico direto sobre a autonomia municipal.

Depende de regulamentação. Sim, extensamente: critérios de acreditação, parâmetros nacionais de formação, regras do sistema eletrônico integrado e disciplina das competências da PRF em ferrovias e hidrovias.

Art. 144-A — Sistema Único de Segurança Pública

O que muda. O SUSP passa a integrar a Constituição, com objetivo de garantir eficiência na prevenção de crimes, na persecução penal e na execução das penas. Quatro diretrizes de cooperação: forças-tarefa intergovernamentais e interinstitucionais (com participação admitida do Ministério Público), interoperabilidade de sistemas, compartilhamento de informações e atuação articulada na produção e intercâmbio de provas. Atos praticados por integrante de força-tarefa são válidos em todo o território de sua atuação.

Comentário. É o dispositivo que dá coerência a toda a PEC. A inspiração declarada é o SUS da saúde: entes autônomos, regras comuns, coordenação federal. A novidade jurídica relevante é a validade nacional dos atos de força-tarefa, que resolve um problema prático antigo — provas produzidas em operação conjunta que eram questionadas por suposto excesso de competência territorial.

Para os conselhos. Este é o dispositivo a citar para fundamentar a exigência de integração de dados entre as forças locais. O conselho pode requerer informação sobre a adesão do município ou do estado aos sistemas integrados, com base na diretriz de interoperabilidade.

Depende de regulamentação. Sim, para a operacionalização dos sistemas e das forças-tarefa.

Art. 144-B — Regime especial para facções e milícias

O que muda. A lei deverá definir regime jurídico especial para integrantes e líderes de organizações criminosas de alta periculosidade, facções, organizações paramilitares e milícias privadas. Medidas previstas: prisão provisória ou definitiva obrigatória em presídio de segurança máxima ou de natureza especial, inclusive em regime disciplinar diferenciado; restrição ou proibição de progressão de regime, de liberdade provisória com ou sem fiança, de acordo com que envolva não condenação do colaborador, de conversão em penas restritivas de direitos, de suspensão condicional da pena, de liberdade condicional, de remição por estudo ou trabalho e de saída temporária; responsabilização civil, penal e administrativa de pessoa jurídica; medidas cautelares patrimoniais e perda de bens, direitos e valores de conteúdo econômico envolvidos com atividades criminosas, sem indenização, destinados a fundo especial; proteção e compensação ao noticiante de atos ilícitos e seus familiares.

Comentário. É o dispositivo mais duro e mais controverso. A lógica é tratar facções e milícias como inimigos do Estado, aproximando-as do regime jurídico do terrorismo. O deputado Kim Kataguiri (União-SP) celebrou expressamente esse enquadramento.

A crítica técnica é consistente: suprimir progressão de regime, remição e saída temporária retira do condenado qualquer incentivo ao comportamento disciplinado e à ressocialização. O risco apontado é de superlotação de presídios de segurança máxima, de judicialização em massa e de criação de um sistema penal de duas velocidades, sem porta de saída. A comparação com El Salvador foi feita explicitamente no plenário da Câmara.

Há também um problema de técnica legislativa: o dispositivo remete tudo à lei. Sem a lei regulamentadora, o regime especial não existe.

Para os conselhos. Indireto na formulação, direto no monitoramento. Conselhos que acompanham o sistema prisional devem monitorar a população carcerária sob regime especial, a taxa de ocupação dos presídios de segurança máxima e eventuais violações de direitos.

Depende de regulamentação. Integralmente. Este é o dispositivo com maior dependência de lei futura.

Arts. 139, 140 e 141 do ADCT — Disposições transitórias

O que muda. Regras de transição, incluindo o cronograma de implantação do novo modelo e a estruturação do financiamento.

Comentário. Dispositivos transitórios definem prazos e condições de entrada em vigor. São a base para o planejamento dos conselhos nos próximos dois a quatro anos.

Para os conselhos. É aqui que se encontram os prazos concretos. Recomendo leitura atenta após a promulgação.

Depende de regulamentação. Sim, para os prazos específicos de cada etapa.

Art. 76 do ADCT — Financiamento

O que muda. O FNSP e o Funpen passam a ter status constitucional, com 50% dos valores repassados pela União a estados e municípios, proteção contra contingenciamento e contra a DRU. Acrescenta-se 10% do superávit anual do Fundo Social do pré-sal aos fundos de segurança pública.

Comentário. É a mudança de maior efeito prático no curto prazo. A blindagem orçamentária significa que o dinheiro deixa de ser discricionário e passa a ser vinculado. O relator no Senado, Rogério Carvalho, resumiu a lógica: "as regras de financiamento fortalecem o FNSP e o Funpen, criam vinculações e blindagens orçamentárias e garantem repasses obrigatórios".

Atenção a um ponto: a versão da Câmara previa a destinação de recursos das bets aos fundos, em escalonamento de 10% a 30% entre 2026 e 2028. O relator no Senado retirou esse dispositivo. Portanto, os recursos das apostas esportivas não estão na PEC aprovada.

Para os conselhos. Impacto direto e imediato. Conselhos municipais e estaduais passam a ter base constitucional para exigir repasse e para fiscalizar a aplicação. O conselho pode requerer ao gestor a prestação de contas dos recursos do FNSP e do Funpen recebidos pelo ente.

Depende de regulamentação. Parcialmente: a vinculação é autoaplicável, mas os critérios de rateio dependem de regulamentação.



Roteiro de atuação para os conselhos

Para os CONSEGs municipais. O primeiro passo é mapear se o município tem guarda municipal constituída e em que estágio de adequação está. O segundo é avaliar, com dados, se há capacidade financeira para sustentar uma polícia municipal — a PEC exige receita própria compatível. O terceiro é emitir manifestação consultiva fundamentada, antes de qualquer projeto de lei municipal, sobre a conveniência da criação. O quarto é acompanhar o processo de acreditação junto ao conselho estadual. O quinto é incluir no regimento interno a competência para monitorar a atuação da nova força, se criada.

Para os Conselhos Estaduais. A atribuição nova e mais relevante é a acreditação das polícias municipais. Isso exige regulamentação interna: critérios objetivos, prazos, procedimento, possibilidade de revisão e periodicidade. O segundo passo é criar grupo de trabalho permanente sobre financiamento, para monitorar os repasses do FNSP e do Funpen. O terceiro é estruturar a análise de compatibilidade das leis estaduais com as normas gerais federais, na competência concorrente. O quarto é articular com o conselho nacional a padronização dos parâmetros de formação.

Para o Conselho Nacional. A atribuição é de coordenação e padronização. O passo concreto é propor os parâmetros nacionais básicos de formação previstos no art. 144, que condicionam a criação de polícias municipais em todo o país.



Checklist de adequação normativa:

Imediato, após a promulgação

Verificar se o regimento interno do conselho contempla as novas competências, especialmente acreditação (estaduais) e manifestação sobre polícia municipal (municipais).

Levantar a situação jurídica da guarda municipal existente: lei de criação, formação exigida, dotação orçamentária e estrutura de controle externo.

Requerer ao gestor informação sobre a adesão do ente aos sistemas integrados de registro de ocorrências.

Solicitar prestação de contas dos recursos do FNSP e do Funpen recebidos no exercício.

Curto prazo, até a edição das leis regulamentadoras:

Acompanhar a tramitação dos projetos de lei de regulamentação, com prioridade para o regime especial das facções e os critérios de acreditação.

Constituir comissão interna para estudar o impacto da competência concorrente sobre a legislação estadual vigente.

Mapear a capacidade financeira municipal, com dados de receita própria, para instruir eventual debate sobre polícia municipal.

Médio prazo, após a regulamentação:

Revisar o regimento interno à luz das leis regulamentadoras.

Estruturar rotina de monitoramento do regime especial de penas, se o conselho tiver interface com o sistema prisional.

Publicar relatório anual de acompanhamento da implantação da PEC.



Conclusão:

A PEC 18/2025 é uma moldura constitucional, não uma política pronta. Essa é a conclusão mais importante e a mais fácil de perder de vista em meio ao volume de mudanças.

O que a emenda faz é reorganizar o desenho institucional: dá base constitucional ao sistema único, redistribui competências, autoriza polícias municipais, cria um regime penal especial e blinda o financiamento. O que ela não faz é entregar nada disso funcionando. O regime das facções, os critérios de acreditação, os parâmetros de formação, as regras de compartilhamento de dados sigilosos e a operação dos sistemas integrados dependem de leis que ainda não existem.

Para os conselhos de segurança pública, o efeito prático é uma mudança de patamar. Até hoje, a atuação dos conselhos se apoiava em lei ordinária e em regulamento. A partir da promulgação, ela se apoia na Constituição. Isso amplia o poder de requisição de informação, o poder de exigir repasse e o poder de condicionar decisões administrativas — especialmente no caso da acreditação das polícias municipais pelos conselhos estaduais.

Três cautelas merecem registro final.

A primeira é sobre o termo "defesa social", que entra na Constituição sem definição. A interpretação que prevalecer determinará o sentido de toda a legislação futura. Conselhos devem evitar adotar a expressão sem qualificá-la.

A segunda é sobre o regime especial de penas. A supressão de progressão, remição e saída temporária é a parte mais vulnerável a questionamento de constitucionalidade, por potencial ofensa à individualização da pena e à dignidade da pessoa humana. É provável que o Supremo seja provocado.

A terceira é sobre o financiamento. A blindagem orçamentária é real, mas a retirada do dispositivo das bets reduziu a base de receita prevista na versão original. Conselhos devem acompanhar a execução orçamentária com atenção, porque vinculação constitucional não garante, por si, execução efetiva.

  A PEC resolve o problema da fragmentação institucional. Não resolve o problema da execução. E é na execução que os conselhos fazem diferença.

Ad Bitencourt RozinOAB/RS 40725

PELEIA RS = CELULAS DE INTELIGÊNCIA AGROINDUSTRIAIS

 

SUGESTÃO À SECRETARIA DE ESTADO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA, PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL E IRRIGAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL

Anteprojeto de lei que institui a Política Estadual de Liberdade Econômica com Elos de Inteligência Agroindustrial (PELEIA/RS)

Autoria: Adelar Bitencourt Rozin — OAB/RS 40725 /  Porto Alegre, outubro de 2026.


OFÍCIO DE ENCAMINHAMENTO

Ao Excelentíssimo Senhor

Luciano Zucco - Governador do Estado do Rio Grande do Sul

e ao Senhor

Paulo Hermann - Secretário de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação

Porto Alegre — RS

"Não me pergunte onde fica o Alegrete nem o que os agricultores precisam: segue o rumo do teu próprio coração."

Assunto: sugestão de anteprojeto de lei que institui a Política Estadual de Liberdade Econômica para a Inteligência Agroindustrial ( PELEIA/RS ).

Exmo. Senhor Governador,

Senhor Secretário,


Encaminho a Vossas Excelências, como contribuição técnica para exame dessa Pasta, anteprojeto de lei que institui a Política Estadual de Liberdade Econômica com Elos de Inteligência Agroindustrial — PELEIA/RS. O texto parte de proposição formulada originalmente no âmbito municipal e foi integralmente reescrito para o plano estadual, com dois ajustes de fundo.

O primeiro é de competência. A Constituição do Estado do Rio Grande do Sul, no art. 184, atribui ao Estado definir sua política agrícola nos limites de sua competência e em harmonia com o plano estadual de desenvolvimento. O anteprojeto se ancora nesse dispositivo e nos arts. 183, 185, 187 e 188 da Constituição Estadual, no art. 187 da Constituição Federal e na Lei federal nº 8.171, de 17 de janeiro de 1991. Onde a competência é da União — crédito rural, seguro agrícola e reforma agrária —, o texto emprega verbos de articulação e de cooperação, sem criar obrigação para ente de outra esfera.

O segundo é de escala. A célula municipal dentro de um sistema estadual de três camadas: um comitê estadual de coordenação, núcleos regionais instalados nas estruturas já existentes da Secretaria e da EMATER/RS-ASCAR e uma plataforma de dados agroindustriais. O financiamento recorre a instrumentos que já existem no Estado, em especial o FEAPER, o FUNTERRA/RS e os fundos de desenvolvimento agropecuário por cadeia produtiva.

O terceiro ponto é de método. Nenhum dos instrumentos propostos é invenção administrativa: todos têm correspondência em política pública testada e documentada, e é essa correspondência que sustenta a viabilidade do desenho. A criação de um banco de terras segue a experiência das SAFER — Sociétés d'aménagement foncier et d'établissement rural, na França, que em 2024 acompanharam 1.350 primeiras instalações, 71% delas fora do quadro familiar. O compartilhamento de máquinas reproduz as CUMA — Coopératives d'utilisation de matériel agricole, também na França, com 10.374 cooperativas e 182 mil aderentes, e os Maschinenringe alemães, com 178.345 explorações associadas e cobertura de 40% da área agrícola do país. A mediação de contratos de sucessão segue o Land Mobility Service irlandês, que no piloto de três anos formalizou 282 acordos e hoje supera mil parcerias. A formação de jovens vem do Groenpact neerlandês, rede que reúne 19 instituições de ensino verde e mais de 80 organizações, e da Boerderijeducatie Nederland, com 325 fazendas educativas e 65 mil crianças por ano. O mercado institucional segue o Programa Nacional de Alimentação Escolar, cujo piso de compra da agricultura familiar foi elevado de 30% para 45% pela Lei nº 15.226, de 30 de setembro de 2025, com vigência a partir de 1º de janeiro de 2026.

O objetivo comum a esses modelos é um só: retirar o território do padrão colonial de vender matéria-prima e comprar produto transformado. A PELEIA/RS organiza células de inteligência que atuam em união — núcleos regionais, cooperativas, universidades, Embrapa e EMATER/RS-ASCAR — para converter esse padrão em produção de riqueza no próprio território, mantendo jovens e famílias na terra e criando condições para que parte dos que saíram possa retornar com um kit completo de instalação: terra, financiamento, adubação, irrigação, logística, maquinário e formação agroindustrial, voltado tanto ao mercado interno quanto à exportação.

Três caminhos de implementação se abrem a partir do texto. O primeiro é o encaminhamento como mensagem do Poder Executivo à Assembleia Legislativa, via que respeita a iniciativa privativa do Governador. O segundo é a edição de decreto para instalar desde já o comitê, os núcleos regionais e a plataforma, enquanto a lei tramita. O terceiro é o uso do anteprojeto como subsídio a audiência pública ou a consulta às entidades do setor, ou ainda como base para proposição de iniciativa parlamentar, na forma da Constituição Estadual.

Coloco-me à disposição para os ajustes que a equipe técnica considerar necessários.

Respeitosamente,



Ad Bitencourt Rozin — OAB/RS 40725

Advogado com atuação no ramo cooperativista; atualmente, na defesa da COTRIJUI em demanda contra COFCO e Chinatex.



PARTE II — ANTEPROJETO DE LEI



PROJETO DE LEI N.º ______/2026



Institui a Política Estadual de Liberdade Econômica com Inteligência Agroindustrial do Rio Grande do Sul (PELEIA/RS), cria o Sistema Estadual de Inteligência Agroindustrial (SEIAG/RS) e dá outras providências.



CAPÍTULO I — DISPOSIÇÕES PRELIMINARES:

Art. 1º Fica instituída a Política Estadual de Liberdade Econômica com Elos de Inteligência Agroindustrial — PELEIA/RS, destinada a produzir informação qualificada, a planejar a médio e a longo prazo e a coordenar ações de agregação de valor à produção primária no território do Estado do Rio Grande do Sul.

Parágrafo único. A PELEIA/RS observa o art. 184 da Constituição do Estado, integra o plano estadual de desenvolvimento de que trata o art. 167 e será executada em consonância com o plano plurianual, a lei de diretrizes orçamentárias e a lei orçamentária anual.

Art. 2º Para os efeitos desta Lei, considera-se:

I — inteligência agroindustrial: o conjunto de atividades de coleta, de tratamento, de análise e de difusão de dados sobre cadeias produtivas, mercados, logística, infraestrutura e riscos, destinado a orientar decisões públicas e privadas;

II — cadeia produtiva agroindustrial: o conjunto de agentes e de atividades que, da produção primária ao consumo final, transformam matéria-prima agropecuária, pesqueira, aquícola ou florestal;

III — agregação de valor: o aumento da renda gerada por unidade produzida, obtido por processamento, classificação, embalagem, certificação, rastreabilidade, diferenciação ou acesso a novos mercados;

IV — agricultor familiar: aquele definido na Lei federal nº 11.326, de 24 de julho de 2006;

V — agroindústria de pequeno porte: a assim classificada nos termos da Lei estadual nº 13.921, de 17 de janeiro de 2012;

VI — arranjo produtivo local: a concentração geográfica de agentes produtivos e de instituições de uma mesma cadeia, com vínculos de cooperação;

VII — kit de instalação produtiva: o conjunto integrado de bens, de serviços e de condições de acesso destinado a viabilizar a instalação ou a reinstalação de empreendimento agropecuário ou agroindustrial, composto por acesso à terra, financiamento, corretivos e fertilizantes, irrigação, armazenagem e logística, máquinas e equipamentos e formação técnica e gerencial;

VIII — sucessão familiar: a transferência organizada do controle e da gestão do estabelecimento rural ou da agroindústria entre gerações, mediante planejamento patrimonial, produtivo e sucessório.

Art. 3º São princípios da PELEIA/RS:

I — a liberdade econômica e a livre iniciativa, nos termos do art. 170 da Constituição Federal;

II — a cooperação federativa, com respeito às competências da União e dos Municípios;

III — a descentralização regional e a prioridade aos territórios de menor dinamismo econômico;

IV — a participação social na formulação, no acompanhamento e na avaliação das ações;

V — a sustentabilidade ambiental, social e econômica;

VI — a transparência e a publicidade dos dados e dos resultados;

VII — a segurança alimentar e nutricional;

VIII — a equidade de gênero, de geração e de etnia no acesso às políticas.

CAPÍTULO II — OBJETIVOS:

Art. 4º São objetivos da PELEIA/RS:

I — planejar, com horizonte mínimo de vinte anos, a agroindustrialização da produção primária gaúcha;

II — elevar a agregação de valor da produção primária no território do Estado, em especial nas regiões de minifúndio e de agricultura familiar;

III — reduzir as disparidades regionais na disponibilidade de infraestrutura, de renda e de serviços públicos no meio rural;

IV — ampliar a segurança alimentar e nutricional da população, com diversificação da pauta produtiva e redução da dependência de poucas cadeias;

V — estimular a sucessão familiar e a permanência do jovem no campo, com renda, crédito, assistência técnica e acesso à terra;

VI — estimular o retorno ao meio rural de jovens e de famílias que dele saíram, mediante oferta integrada de terra, financiamento, insumos, irrigação, logística, maquinário e formação agroindustrial;

VII — ampliar a irrigação, a armazenagem, a logística, a eletrificação e a conectividade rural;

VIII — fomentar a pesquisa aplicada, a inovação e a extensão rural, com transferência de tecnologia ao produtor;

IX — fortalecer o cooperativismo e o associativismo como instrumentos de escala, de comercialização e de acesso a mercados;

X — ampliar o acesso da produção familiar e de pequeno porte aos mercados institucionais e às compras públicas;

XI — apoiar a sanidade, a rastreabilidade e a qualidade dos produtos gaúchos;

XII — promover a adaptação às mudanças climáticas e a transição energética no meio rural;

XIII — ampliar a competitividade dos produtos gaúchos nos mercados interno e externo, com retenção da renda da transformação no território;

XIV — integrar as ações estaduais com as políticas federais e municipais de desenvolvimento rural.

CAPÍTULO III — DIRETRIZES:

Art. 5º A PELEIA/RS observará as seguintes diretrizes:

I — regionalização das ações, tendo por base as Regiões Funcionais de Planejamento e a articulação com os Conselhos Regionais de Desenvolvimento — COREDEs;

II — prioridade aos pequenos e médios estabelecimentos, às agroindústrias de pequeno porte e às cooperativas de agricultores familiares;

III — planejamento a partir de dados, com metas verificáveis e avaliação periódica de impacto;

IV — simplicidade nos procedimentos de habilitação, de licenciamento e de acesso a incentivos;

V — parceria com universidades, instituições de pesquisa e escolas técnicas na formação de mão de obra e na geração de tecnologia;

VI — uso preferencial das estruturas públicas já instaladas, vedada a duplicação de órgãos;

VII — compatibilização com a política agrícola e com a política fundiária, nos termos do art. 185 da Constituição do Estado;

VIII — articulação permanente com cooperativas, com a Embrapa, com a EMATER/RS-ASCAR e com instituições de ensino e de pesquisa, tomadas como rede de execução, e não como destinatárias passivas da política.

CAPÍTULO IV — INSTRUMENTOS:

Art. 6º São instrumentos da PELEIA/RS:

I — a Plataforma Estadual de Inteligência Agroindustrial;

II — o Plano Estadual de Inteligência Agroindustrial;

III — a Carteira Estadual de Projetos de Agroindustrialização;

IV — o ensino, a pesquisa, a extensão e a assistência técnica rural;

V — o crédito, o seguro e os instrumentos de gestão de risco;

VI — a tributação e os incentivos fiscais, na forma da lei específica;

VII — a irrigação, a armazenagem, a logística, a eletrificação e a telefonia rurais;

VIII — a comercialização, os mercados institucionais e as centrais de compras de que trata o art. 187 da Constituição do Estado;

IX — a formação profissional e a educação do campo;

X — os contratos-programa e os termos de cooperação;

XI — o Banco Estadual de Terras;

XII — os Grupos de Máquinas e Equipamentos Compartilhados;

XIII — o Kit de Instalação Produtiva;

XIV — o Contrato de Sucessão Familiar;

XV — a Rede Estadual de Educação Agroindustrial.

Parágrafo único. As soluções institucionais adotadas nesta Lei tomam por referência modelos consolidados de política agrária, de mecanização compartilhada, de sucessão e de formação agroindustrial, entre os quais as Sociétés d'aménagement foncier et d'établissement rural e as Coopératives d'utilisation de matériel agricole, na França; o Land Mobility Service, na Irlanda; os Maschinenringe, na Alemanha; a Boerderijeducatie Nederland e o Groenpact, nos Países Baixos; e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, no Brasil.



Seção I — Da Plataforma Estadual de Inteligência Agroindustrial:



Art. 7º Fica criada a Plataforma Estadual de Inteligência Agroindustrial, sob coordenação da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, com as seguintes finalidades:

I — consolidar dados de produção, de produtividade, de preços, de armazenagem, de logística, de sanidade e de risco climático das cadeias produtivas gaúchas;

II — produzir análises de conjuntura e cenários de médio e de longo prazo;

III — identificar gargalos de infraestrutura e oportunidades de agregação de valor;

IV — apoiar a decisão pública na alocação de recursos e na priorização de projetos.

§ 1º A Plataforma integrará bases de dados de órgãos e de entidades estaduais e, mediante acordo, de instituições federais, municipais e privadas.

§ 2º Os dados de natureza pública serão disponibilizados em formato aberto, observadas a Lei federal nº 12.527, de 18 de novembro de 2011, e a Lei federal nº 13.709, de 14 de agosto de 2018.

§ 3º É vedada a divulgação de dados individualizados de produtores sem consentimento do titular.

Seção II — Do Plano Estadual de Inteligência Agroindustrial:

Art. 8º O Plano Estadual de Inteligência Agroindustrial será elaborado pela Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, com participação do comitê de que trata o art. 10, e aprovado por decreto, com vigência de dez anos e revisão quadrienal coincidente com o plano plurianual.

§ 1º O Plano conterá diagnóstico por região, metas quantificadas, fontes de financiamento, indicadores de resultado e cronograma de execução.

§ 2º A revisão quadrienal será submetida a consulta pública prévia, pelo prazo mínimo de trinta dias.

Seção III — Da Carteira Estadual de Projetos de Agroindustrialização:

Art. 9º Fica instituída a Carteira Estadual de Projetos de Agroindustrialização, destinada a registrar, a qualificar e a priorizar projetos de agroindústria, de armazenagem, de irrigação, de logística e de inovação que pleiteiem apoio estadual.

§ 1º A habilitação do projeto observará critérios objetivos de geração de renda, de agregação de valor local, de número de famílias beneficiadas, de sustentabilidade ambiental e de viabilidade econômica.

§ 2º Terão prioridade os projetos de cooperativas, de agricultores familiares e de agroindústrias de pequeno porte.

§ 3º A Carteira será publicada e atualizada em meio eletrônico de acesso público.

CAPÍTULO V — GOVERNANÇA:

Art. 10. Fica criado o Comitê Estadual de Inteligência Agroindustrial — CEIAG/RS, órgão colegiado de caráter consultivo e propositivo, vinculado à Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, com as seguintes competências:

I — propor as diretrizes e as prioridades da PELEIA/RS;

II — acompanhar a elaboração e a execução do Plano Estadual;

III — opinar sobre os projetos da Carteira Estadual;

IV — aprovar o relatório anual de execução;

V — propor ajustes nos programas e nos instrumentos de financiamento;

VI — opinar sobre a alocação dos recursos do FEAPER e dos fundos estaduais de desenvolvimento agropecuário destinados às ações da PELEIA/RS.

Art. 11. O CEIAG/RS terá composição paritária entre representantes do Poder Executivo estadual e da sociedade civil, na seguinte forma:

I — o Secretário de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, que o presidirá;

II — um representante de cada uma das áreas de planejamento e gestão, de fazenda, de meio ambiente, de desenvolvimento econômico e inovação, de educação e de assistência social e trabalho;

III — três representantes das entidades estaduais de representação dos agricultores familiares e dos trabalhadores rurais;

IV — três representantes das entidades estaduais de representação do agronegócio e do cooperativismo;

V — um representante da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul — FAMURS;

VI — dois representantes de instituições de ensino e de pesquisa com atuação em ciências agrárias.

§ 1º Os membros de que tratam os incisos III a VI e seus suplentes serão designados pelo Governador do Estado, a partir de lista tríplice encaminhada pelas respectivas entidades.

§ 2º O mandato será de dois anos, permitida uma recondução.

§ 3º A função de membro não será remunerada e seu exercício será considerado serviço público relevante.

§ 4º O Comitê reunir-se-á, no mínimo, a cada trimestre, e suas deliberações serão publicadas.

Art. 12. Ficam criados os Núcleos Regionais de Inteligência Agroindustrial — NURIAG, um em cada Região Funcional de Planejamento, com a finalidade de:

I — adaptar o Plano Estadual às condições regionais;

II — levantar demandas e projetos locais;

III — articular prefeituras, cooperativas, entidades e instituições de ensino;

IV — acompanhar a execução das ações na região.

§ 1º Os Núcleos funcionarão nas estruturas regionais já existentes da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação e da EMATER/RS-ASCAR, sem criação de novas unidades administrativas.

§ 2º A coordenação de cada Núcleo será exercida por servidor designado pela Secretaria, com apoio técnico da extensão rural.

§ 3º Cada Núcleo manterá interlocução com o Conselho Regional de Desenvolvimento da respectiva região.

§ 4º Cada Núcleo publicará relatório semestral de execução, com os dados da respectiva região.

Art. 13. Fica instituído o Sistema Estadual de Inteligência Agroindustrial — SEIAG/RS, integrado pelos órgãos e pelas entidades da administração estadual que atuam nas cadeias agroindustriais, sob coordenação da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação e aberto à adesão de instituições federais, municipais e privadas mediante acordo de cooperação.

Parágrafo único. O CEIAG/RS, os NURIAG e o SEIAG/RS constituem a estrutura operacional da PELEIA/RS.



CAPÍTULO VI — ARTICULAÇÃO COM OS DEMAIS ENTES E COM O SETOR PRODUTIVO:



Art. 14. O Estado celebrará convênios e acordos de cooperação com a União, em especial com o Ministério da Agricultura e Pecuária e com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária — Embrapa, com os Municípios, com os demais Estados e com organismos internacionais para a execução da PELEIA/RS, vedada a delegação de competência normativa.

Art. 15. A atuação da PELEIA/RS observará, sem prejuízo, o disposto na Lei estadual nº 13.921, de 17 de janeiro de 2012, que institui a Política Estadual de Agroindústria Familiar, e na Lei estadual nº 14.486, de 30 de janeiro de 2014, que institui a Política Estadual de Agroecologia e de Produção Orgânica.

Art. 16. Nas contratações públicas de gêneros alimentícios, o Estado observará o disposto no art. 187, parágrafo único, da Constituição do Estado e na Lei federal nº 11.947, de 16 de junho de 2009, assegurando a participação da agricultura familiar com a inscrição estadual de produtor rural.

§ 1º O Estado fixará, em regulamento, meta progressiva de aquisição de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar nas compras públicas estaduais, observado, no mínimo, o piso previsto na legislação federal.

§ 2º O Estado apoiará os Municípios na estruturação de chamadas públicas, na habilitação sanitária das agroindústrias fornecedoras e na organização da oferta por região.

§ 3º As centrais de compras de que trata o art. 187 da Constituição do Estado poderão ser utilizadas para agregar a demanda dos órgãos estaduais e municipais.

Art. 17. O Estado apoiará programas de sucessão familiar e de permanência de jovens no meio rural, com prioridade em:

I — assistência técnica e capacitação em gestão;

II — acesso a crédito e a terra;

III — habitação, saúde, educação e conectividade no meio rural;

IV — incubação de agroindústrias de pequeno porte;

V — planejamento sucessório e patrimonial da família rural.



CAPÍTULO VII — DO ACESSO À TERRA, DOS EQUIPAMENTOS E DA INSTALAÇÃO PRODUTIVA:



Art. 18. Fica instituído o Banco Estadual de Terras, operado pelo Fundo de Terras — FUNTERRA/RS, com as seguintes finalidades:

I — identificar imóveis rurais aptos à aquisição ou ao arrendamento para instalação de jovens, de agricultores familiares e de empreendimentos agroindustriais de pequeno porte;

II — adquirir, arrendar ou receber imóveis rurais para essa finalidade, nos termos do art. 188 da Constituição do Estado;

III — ceder o uso dos imóveis mediante arrendamento com opção de compra, contrato de parceria ou outra modalidade prevista em lei;

IV — mediar acordos de sucessão e de mobilidade fundiária entre proprietários que pretendam encerrar a atividade e produtores que pretendam iniciá-la ou ampliá-la.

§ 1º A seleção dos beneficiários observará plano de exploração aprovado, capacidade técnica comprovada e ordem de prioridade definida em regulamento, com preferência a jovens de dezoito a trinta e nove anos.

§ 2º A aquisição do imóvel será precedida de avaliação técnica e de laudo agronômico, com teto de preço por módulo fiscal fixado em regulamento.

§ 3º Serão publicados periodicamente a relação de imóveis, os valores praticados e os critérios de seleção.

§ 4º O disposto neste artigo não afasta a atuação supletiva da União no âmbito do Programa Nacional de Crédito Fundiário, cujas linhas poderão ser utilizadas como fonte de financiamento das operações.

Art. 19. Ficam instituídos os Grupos de Máquinas e Equipamentos Compartilhados, com a finalidade de reduzir o custo de mecanização e de industrialização da produção de pequeno porte.

§ 1º Os bens poderão ser adquiridos e registrados em nome de cooperativa, de associação ou de consórcio público intermunicipal, vedada a transferência individual do equipamento antes do prazo de carência fixado em regulamento.

§ 2º O apoio estadual consistirá em subvenção parcial de juros, em aporte de parcela de capital ou em aquisição direta, observados os limites orçamentários.

§ 3º São elegíveis, entre outros, equipamentos de preparo de solo e de colheita, sistemas de irrigação, câmaras frias, unidades de beneficiamento, despolpadeiras, moinhos, prensas, seladoras e veículos de transporte refrigerado.

§ 4º A gestão do grupo será exercida por plano de uso aprovado em assembleia e registrado, com previsão de rateio de custos e de manutenção.

Art. 20. Fica instituído o Kit de Instalação Produtiva, destinado ao jovem ou à família que se instale ou retorne ao meio rural, composto, de forma integrada, por:

I — acesso à terra, na forma do art. 18;

II — financiamento de custeio e de investimento, com carência compatível com o ciclo produtivo;

III — corretivos de solo, fertilizantes e sementes para a primeira safra;

IV — sistema de irrigação e de captação de água;

V — infraestrutura de armazenagem e de logística;

VI — máquinas, implementos e equipamentos, isoladamente ou por meio dos grupos de que trata o art. 19;

VII — formação técnica, gerencial e agroindustrial, na forma do Capítulo VIII.

§ 1º O kit será concedido mediante plano de negócio de quatro anos, com metas de produção, de renda e de agregação de valor.

§ 2º A liberação de cada componente será condicionada ao cumprimento das etapas anteriores do plano.

§ 3º O acompanhamento técnico será obrigatório e exercido pela EMATER/RS-ASCAR ou por entidade credenciada.

§ 4º Terão prioridade os projetos voltados à produção de alimentos para o mercado interno e os que agreguem valor no território com destino à exportação.

Art. 21. O Contrato de Sucessão Familiar é o instrumento pelo qual a família rural e o sucessor formalizam o plano de transferência da gestão e do patrimônio do estabelecimento, com duração mínima de vinte e quatro meses.

§ 1º O contrato conterá diagnóstico do estabelecimento, plano de capacitação do sucessor, cronograma de transferência gradual da gestão e cláusula de solução de controvérsias.

§ 2º A formalização assegura ao sucessor prioridade no acesso aos instrumentos desta Lei, inclusive ao kit de que trata o art. 20.

§ 3º O Estado poderá prever tratamento tributário diferenciado na transmissão causa mortis e por ato entre vivos de imóvel rural ao sucessor que tenha contrato formalizado, na forma de lei específica e com prévia estimativa de impacto orçamentário e financeiro.

§ 4º O contrato será registrado em sistema estadual de acesso público, vedada a publicidade de dados pessoais.



CAPÍTULO VIII — DA EDUCAÇÃO AGROINDUSTRIAL E DA FORMAÇÃO DE JOVENS:



Art. 22. Fica instituída a Rede Estadual de Educação Agroindustrial, articulando a Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, a Secretaria da Educação, as escolas agrícolas, as Escolas Famílias Agrícolas, as Casas Familiares Rurais, os institutos federais e as universidades, com os seguintes objetivos:

I — integrar o ensino técnico e superior às cadeias produtivas do Estado;

II — ampliar a matrícula nos cursos de ciências agrárias, de zootecnia e de agroindústria;

III — assegurar estágio curricular em propriedade rural ou em agroindústria;

IV — manter bolsa de residência técnica em agroindústria, com contrapartida de extensão;

V — atualizar permanentemente os currículos em conjunto com o setor produtivo.

§ 1º A Rede terá plano de metas quadrienal, com indicadores de matrícula, de conclusão e de inserção profissional.

§ 2º O Estado apoiará a ampliação da rede de Escolas Famílias Agrícolas e de Casas Familiares Rurais, com financiamento calculado por aluno matriculado.

Art. 23. Fica instituído o programa Escola na Propriedade, destinado a levar alunos do ensino fundamental e médio a propriedades rurais e a agroindústrias, com os seguintes objetivos:

I — aproximar a escola da realidade produtiva;

II — apresentar a atividade agropecuária e agroindustrial como opção profissional;

III — valorizar o conhecimento aplicado e a educação alimentar e nutricional.

§ 1º As visitas serão conduzidas por produtor ou por agroindustrial habilitado como educador.

§ 2º O educador credenciado fará jus a remuneração por atividade efetivamente realizada, na forma do regulamento.

§ 3º O Estado assegurará material didático, capacitação do educador, seguro de acidentes e transporte escolar.

Art. 24. O Estado celebrará termos de cooperação com universidades públicas e comunitárias, com institutos federais e com instituições de pesquisa, em especial a Embrapa, para:

I — desenvolvimento de tecnologia aplicada às cadeias produtivas regionais;

II — validação de resultados em unidades de referência tecnológica instaladas em propriedades reais;

III — formação de mão de obra qualificada para a agroindústria;

IV — publicação de dados e de resultados na Plataforma de que trata o art. 7º.

Parágrafo único. A recomendação técnica somente será incorporada aos programas desta Lei após validação em unidade de referência, com medição de custo e de produtividade.



CAPÍTULO IX — FINANCIAMENTO:


Art. 25. A PELEIA/RS será financiada com:

I — dotações consignadas no orçamento dos órgãos e das entidades responsáveis;

II — recursos do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais — FEAPER;

III — recursos do Fundo de Terras — FUNTERRA/RS, na sua finalidade constitucional;

IV — recursos dos fundos estaduais de desenvolvimento agropecuário por cadeia produtiva;

V — convênios, acordos e transferências da União, de outros Estados, de Municípios e de organismos internacionais;

VI — doações, legados e recursos de cooperação técnica;

VII — emendas parlamentares e outras fontes previstas em lei;

VIII — linhas de crédito e de fomento de instituições financeiras públicas estaduais.

Art. 26. A concessão de incentivos fiscais, financeiros ou creditícios observará as normas de responsabilidade fiscal, em especial o art. 14 da Lei Complementar federal nº 101, de 4 de maio de 2000, e dependerá de avaliação prévia de impacto econômico e social.

Art. 27. As despesas decorrentes desta Lei correrão à conta de dotações orçamentárias próprias, consignadas no orçamento dos órgãos responsáveis, suplementadas se necessário.



CAPÍTULO X — TRANSPARÊNCIA E AVALIAÇÃO:


Art. 28. A PELEIA/RS será avaliada por indicadores de resultado, entre os quais:

I — número de agroindústrias habilitadas e de empregos gerados;

II — valor da produção com agregação de valor no território;

III — número de famílias atendidas por assistência técnica e por crédito;

IV — área irrigada e capacidade de armazenagem adicionadas;

V — número de jovens atendidos por programas de sucessão e de kits de instalação concedidos;

VI — número de grupos de máquinas em operação e de alunos atendidos pela Rede Estadual de Educação Agroindustrial;

VII — execução física e financeira das ações.

Art. 29. A Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação publicará, até 30 de abril de cada ano, relatório de execução da PELEIA/RS referente ao exercício anterior, com os indicadores apurados, e o encaminhará ao CEIAG/RS e à Assembleia Legislativa.

Art. 30. O Estado realizará, a cada dois anos, Conferência Estadual de Inteligência Agroindustrial, precedida de conferências regionais, com participação do setor produtivo, das entidades e da sociedade civil, para avaliação e proposição de diretrizes.



CAPÍTULO XII — DA REDE ESTADUAL DE ARMAZENAGEM E DAS RESERVAS ESTRATÉGICAS DE ALIMENTOS E ÁGUA

Art. 31. Ficam instituídas a Rede Estadual de Armazenagem Estratégica — REAE e a Reserva Estadual de Alimentos e Água — REAA, destinadas a reduzir a exposição da população gaúcha a crises alimentares globais, a anomalias climáticas, a rupturas logísticas e a eventos sanitários.

Art. 32. A REAE é integrada por silos, armazéns graneleiros, câmaras frias e unidades de beneficiamento de titularidade pública ou privada, credenciados junto à Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação.

§ 1º O credenciamento observará capacidade estática, condições sanitárias, localização logística e disponibilidade de cessão ao Estado em regime de reserva de espaço.

§ 2º O Estado priorizará a contratação de capacidade privada ociosa, com preço de referência fixado em regulamento, antes de decidir pela construção de unidade pública.

§ 3º A expansão da capacidade observará o déficit regional apurado em levantamento anual, com prioridade para as regiões cuja relação entre produção e capacidade estática seja mais desfavorável.

Art. 33. A REAA tem por objetivos:

I — assegurar o abastecimento de alimentos e de água à população em situação de emergência ou de calamidade pública reconhecida;

II — garantir o funcionamento ininterrupto da alimentação escolar estadual, dos estabelecimentos hospitalares públicos, da rede socioassistencial e dos órgãos de proteção e defesa civil;

III — atenuar a volatilidade de preços dos gêneros de primeira necessidade;

IV — proteger a produção gaúcha de choques externos de oferta e de demanda;

V — preservar a capacidade de resposta do Estado a restrições de importação e a barreiras sanitárias.

Art. 34. A REAA será composta por:

I — grãos e cereais de consumo básico, em estado natural;

II — alimentos beneficiados de longa validade, incluindo conservas, desidratados, farinhas, óleos, extratos e produtos cárneos embalados estocáveis;

III — água potável e água para uso produtivo, na forma do art. 39;

IV — insumos críticos de produção de alimentos, na forma do regulamento.

§ 1º A aquisição de alimentos beneficiados dará preferência a agroindústrias familiares detentoras do Selo Sabor Gaúcho e a estabelecimentos certificados na forma do Capítulo XIII.

§ 2º É vedada a estocagem, na reserva estratégica, de produtos perecíveis in natura que não admitam conservação pelo período mínimo previsto no art. 38.

Art. 35. O dimensionamento da reserva observará duas camadas:

I — camada de segurança institucional: volume equivalente a vinte e quatro meses de consumo estimado da alimentação escolar estadual, dos estabelecimentos hospitalares públicos, da rede socioassistencial e dos órgãos de proteção e defesa civil;

II — camada de segurança humanitária: volume equivalente a doze meses de cestas básicas de emergência para a população em situação de vulnerabilidade, dimensionada para atendimento em cenário de calamidade.

§ 1º A reserva será constituída de forma progressiva, com meta mínima de vinte e cinco por cento da camada de segurança institucional ao ano, até o integral cumprimento no quarto exercício de vigência desta Lei.

§ 2º A camada de segurança humanitária será implantada a partir do segundo exercício, com igual progressividade.

§ 3º O Poder Executivo publicará, anualmente, demonstrativo do volume estocado, do consumo projetado e do percentual de cobertura de cada camada.

Art. 36. Fica instituída a Reserva Hídrica de Segurança, destinada a assegurar água para consumo humano e para a atividade produtiva em períodos de estiagem.

§ 1º O dimensionamento observará volume equivalente a vinte e quatro meses de demanda estimada do projeto beneficiado, apurada em laudo hidrológico emitido por profissional habilitado.

§ 2º São instrumentos da Reserva Hídrica de Segurança a construção e a recuperação de açudes, cisternas, barragens de acumulação, poços e sistemas de captação de água de chuva, bem como o reúso de água na agroindústria.

§ 3º O Estado condicionará o apoio a projetos de irrigação e de agroindustrialização à comprovação de disponibilidade hídrica compatível com a Reserva Hídrica de Segurança, observada a outorga de que trata a legislação de recursos hídricos.

Art. 37. A articulação com a União e com a Companhia Nacional de Abastecimento — CONAB dar-se-á por termo de adesão e por instrumentos de aquisição e de formação de estoques, entre os quais a Aquisição do Governo Federal, o Contrato de Opção de Venda, a Cédula de Produto Rural nas modalidades de estoque e de doação e as compras do Programa de Aquisição de Alimentos.

§ 1º O Estado oferecerá contrapartida de armazenagem, de logística e de custeio de carregamento, na forma do ajuste celebrado.

§ 2º O Estado poderá adquirir diretamente a produção de cooperativas e de agroindústrias familiares para a composição da reserva, mediante chamada pública e preço de referência.

§ 3º Os sistemas de informação do Estado e da CONAB serão interoperáveis, para apuração conjunta de volumes e de cobertura.

Art. 38. A gestão da reserva observará:

I — o critério primeiro que expira, primeiro que sai, com controle de lote e de validade;

II — prazo mínimo de validade remanescente de doze meses na data de incorporação;

III — seguro contra perda, avaria e sinistro, a cargo do depositário;

IV — rotatividade obrigatória, vedada a imobilização de estoque acima do necessário ao cumprimento das metas;

V — auditoria anual pela Contadoria e Auditoria-Geral do Estado e publicação de painel público de estoques.

Art. 39. A reserva estratégica não será utilizada para contenção artificial de preços, para desabastecimento do mercado interno nem para finalidade estranha à segurança alimentar e hídrica, vedado o uso eleitoral ou a destinação a pessoa ou grupo determinado fora dos critérios do regulamento.

CAPÍTULO XIII — DOS SELOS DE SULANIDADE, PROTEÇÃO GEOGRÁFICA E QUALIDADE ÚNICA:

Art. 40. Fica instituído o Sistema Estadual de Selos de Origem, Proteção Geográfica e Qualidade Única — SESOQ, com as seguintes modalidades:

I — Selo de Sulanidade, de origem territorial;

II — Proteção Geográfica Estadual — PGI/RS, de reconhecimento de vínculo entre produto e meio geográfico;

III — Selo de Qualidade Única, de atributo verificável.

Parágrafo único. A obtenção de uma modalidade não dispensa o cumprimento dos requisitos das demais, e o uso do selo é voluntário, mediante licença.

Art. 41. O Selo de Sulanidade certifica que o produto ou o serviço é originário do território de clima temperado do Rio Grande do Sul e observa sistema de produção compatível com as condições edafoclimáticas da região.

§ 1º Considera-se território de clima temperado, para os fins desta Lei, o conjunto de municípios delimitado em regulamento com base em critérios de temperatura, disponibilidade hídrica, tipo de solo e formação vegetal.

§ 2º O selo distinguirá a produção de origem vegetal, animal, pesqueira, florestal e os produtos agroindustrializados, observados os requisitos de rastreabilidade e de conformidade sanitária.

§ 3º O Estado poderá celebrar acordo de reconhecimento recíproco com os demais Estados da Região Sul, para fins de identidade territorial do selo, vedada a extensão de efeitos sobre matéria de competência da União.

Art. 42. A PGI/RS reconhece o vínculo entre as qualidades ou características de produto ou serviço e o meio geográfico delimitado, e tem por finalidade instruir e apoiar o pedido de registro de Indicação Geográfica junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial.

§ 1º O reconhecimento estadual não substitui o registro federal e não cria direito oponível a terceiros fora dos limites da licença de uso do selo.

§ 2º O Estado custeará ou apoiará a elaboração do dossiê técnico, do caderno de normas e do regulamento de uso da indicação.

§ 3º O Estado manterá articulação com o Instituto Nacional da Propriedade Industrial, com o Ministério da Agricultura e Pecuária e com as entidades representativas para a obtenção e a manutenção do registro.

Art. 43. O Selo de Qualidade Única certifica atributos específicos e verificáveis do produto, entre os quais rastreabilidade individual, bem-estar animal, resíduos, origem da alimentação, manejo de solo, teor nutricional e identidade de cultivar.

§ 1º Cada produto terá regulamento técnico próprio, elaborado com participação do setor produtivo e de instituição de pesquisa.

§ 2º A verificação será feita por organismo independente acreditado, vedada a autocertificação.

Art. 44. A governança do SESOQ caberá a comitê técnico instituído no âmbito do Comitê Estadual de Inteligência Agroindustrial, com as seguintes competências:

I — aprovar os regulamentos técnicos e os requisitos de cada selo;

II — conceder, suspender e cancelar licenças de uso;

III — zelar pela não proliferação de selos, observado o limite de três modalidades de que trata o art. 43;

IV — manter cadastro público de licenciados e de produtos certificados;

V — propor medidas de combate ao uso indevido e à concorrência desleal.

Art. 45. O selo estadual não produz efeito extraterritorial. A proteção em mercados estrangeiros depende do registro federal da Indicação Geográfica e dos acordos internacionais de que a União seja parte, cabendo ao Estado apoiar tecnicamente os titulares.



CAPÍTULO XIV — DA MENSURAÇÃO ECONÔMICA DOS ATIVOS AMBIENTAIS E DAS RESERVAS VERDES:

Art. 46. Fica instituído o Cadastro Estadual de Ativos Ambientais — CEAA, com a finalidade de inventariar e de georreferenciar:

I — as Áreas de Preservação Permanente;

II — a Reserva Legal e o excedente de vegetação nativa;

III — as áreas de baixa aptidão para exploração agrícola ou pecuária;

IV — as áreas de recarga hídrica e de nascentes;

V — as áreas sob servidão ambiental e as Reservas Particulares do Patrimônio Natural.

§ 1º O cadastro será integrado ao Cadastro Ambiental Rural e ao Sistema Estadual de Informações sobre o Meio Ambiente.

§ 2º Os dados de titularidade serão protegidos na forma da Lei federal nº 13.709, de 14 de agosto de 2018.

Art. 47. Fica instituída a Tabela Estadual de Referência de Valores Ambientais — TERVA, revisada anualmente, destinada a atribuir valor monetário de referência aos ativos cadastrados.

§ 1º A apuração utilizará, de forma combinada:

I — o custo de oportunidade, correspondente à renda líquida cessante por hectare em razão da limitação de uso;

II — o custo de restauração e de manutenção da área conservada;

III — o valor do serviço ecossistêmico prestado, apurado por indicadores de quantidade e de qualidade de água, de estoque de carbono, de conservação do solo e de biodiversidade.

§ 2º A tabela será segmentada por região, por tipo de formação vegetal e por classe de aptidão agrícola.

§ 3º A metodologia e os valores serão submetidos a consulta pública e a parecer de instituição de pesquisa antes da publicação.

Art. 48. A TERVA aplicará fator de prioridade territorial, entre um vírgula três e um vírgula oito, às áreas de baixa aptidão para exploração agrícola ou pecuária, às áreas de recarga hídrica e aos municípios com menor índice de desenvolvimento socioeconômico.

Parágrafo único. O fator de prioridade tem por finalidade tornar economicamente vantajosa a conservação de áreas cuja exploração produtiva é inviável, e constitui alternativa de renda para a família rural que nelas mantém vegetação nativa.

Art. 49. A realização de valor dos ativos ambientais dar-se-á por:

I — contrato de pagamento por serviços ambientais, na forma da Lei federal nº 14.119, de 13 de janeiro de 2021, e da Lei estadual nº 15.434, de 9 de janeiro de 2020;

II — emissão e negociação de Cota de Reserva Ambiental, na forma do art. 44 da Lei federal nº 12.651, de 25 de maio de 2012, e do Decreto federal nº 9.640, de 27 de dezembro de 2018;

III — instituição de servidão ambiental;

IV — títulos verdes e operações de crédito com garantia ambiental, junto às instituições financeiras públicas estaduais;

V — pagamento por conservação de áreas de recarga e por reserva hídrica;

VI — participação em mercados de carbono, inclusive o sistema nacional de comércio de emissões em implantação.

§ 1º A parcela da área exigida como Reserva Legal é elegível para pagamento, na forma do parágrafo único do art. 6º da Lei federal nº 14.119, de 2021, condicionada à comprovação de conservação efetiva e de adicionalidade.

§ 2º O pagamento dependerá de contrato, de monitoramento por sensoriamento remoto e de verificação periódica, e será suspenso em caso de descumprimento.

Art. 50. A mensuração prevista neste Capítulo não implica desapropriação, não transfere domínio, não cria servidão administrativa e não exonera o proprietário das obrigações ambientais legais.

Art. 51. Os recursos para a realização de valor dos ativos ambientais provirão do Fundo Estadual de Pagamento por Serviços Ambientais, das dotações da PELEIA/RS, de recursos de compensação ambiental, de convênios e de cooperação internacional.



CAPÍTULO XV — DA INTEGRAÇÃO COM A INDÚSTRIA DE MÁQUINAS AGRÍCOLAS E DE BENEFICIAMENTO:

Art. 52. Fica instituído o Programa de Adensamento da Cadeia Industrial Agropecuária — PACI, destinado a integrar a indústria de máquinas e implementos agrícolas e a indústria de beneficiamento de cereais, de frutas e de carnes às cadeias produtivas do território gaúcho.

Art. 53. São objetivos do PACI:

I — elevar a agregação de valor da produção primária dentro do território do Estado;

II — reduzir a exportação de matéria-prima e a importação de produto beneficiado;

III — ampliar a oferta de equipamentos adequados à agricultura familiar e à agroindústria de pequeno porte;

IV — integrar a indústria instalada no Estado à rede de fornecedores e de cooperativas;

V — ampliar a participação gaúcha nas exportações de produtos com marca e com rastreabilidade.

Art. 54. São instrumentos do PACI:

I — contrato de integração produtiva entre o Estado, a indústria e as cooperativas;

II — encomenda tecnológica e compra pública de inovação, na forma da legislação de licitações e do marco legal das startups;

III — crédito e garantia por meio das instituições financeiras públicas estaduais e dos fundos de fomento;

IV — apoio à infraestrutura de energia, de logística e de conectividade;

V — simplificação e priorização do licenciamento ambiental e sanitário;

VI — formação e qualificação de mão de obra em conjunto com a Rede Estadual de Educação Agroindustrial;

VII — apoio à habilitação sanitária federal dos estabelecimentos de abate e de beneficiamento.

Art. 55. A concessão de qualquer incentivo no âmbito do PACI será formalizada em contrato com contrapartidas verificáveis, entre as quais:

I — instalação ou ampliação de unidade industrial no território do Estado;

II — compromisso mínimo de aquisição de matéria-prima produzida no Estado;

III — investimento em pesquisa e desenvolvimento com instituição sediada no Estado;

IV — oferta de estágio, de aprendizagem e de formação técnica;

V — assistência técnica aos fornecedores e programa de sucessão familiar entre os integrados;

VI — metas de agregação de valor e de geração de emprego, com apuração anual.

§ 1º O descumprimento da contrapartida sujeitará o beneficiário à suspensão do incentivo e à devolução proporcional do benefício, sem prejuízo das sanções contratuais.

§ 2º É vedada a concessão de benefício sem estimativa prévia de impacto e sem observância do art. 14 da Lei Complementar federal nº 101, de 4 de maio de 2000.

Art. 56. O Estado apoiará o desenvolvimento, no parque industrial gaúcho de máquinas e implementos, de linha dedicada a equipamentos de pequeno e de médio porte destinados à agricultura familiar e à agroindústria de pequeno porte, com preço de referência e prioridade de aquisição pelos Grupos de Máquinas e Equipamentos Compartilhados de que trata o art. 19.

Art. 57. O apoio à indústria de beneficiamento de carnes condicionar-se-á à adoção de rastreabilidade individual do rebanho, de cadeia de frio verificada e de programa de qualidade com marca regional, e priorizará os estabelecimentos que ampliem a participação do Estado nas exportações de carne com valor agregado.

Art. 58. O apoio à indústria de beneficiamento de frutas e de cereais priorizará as linhas de produtos de longa validade, aptas a integrar a Reserva Estadual de Alimentos e Água de que trata o art. 37, e a recuperação de unidades de processamento desativadas em regiões de tradição industrial.

Art. 59. As metas e as contrapartidas do PACI serão avaliadas anualmente pelo Comitê Estadual de Inteligência Agroindustrial e publicadas em painel de acesso público.



CAPÍTULO XVI — DO INTERCÂMBIO INTERNACIONAL DE JOVENS:

Art. 60. Fica instituído o Programa Sulanidade de Intercâmbio Agroindustrial — PSIA, com duas modalidades:

I — recepção de jovens estrangeiros para formação e para atividade em propriedades, agroindústrias e instituições de ensino e de pesquisa do Estado;

II — envio de jovens gaúchos para formação em instituições estrangeiras, com contrapartida de retorno e de transferência de conhecimento.

Art. 61. A modalidade de recepção destina-se a jovens de dezoito a trinta e cinco anos, pelo prazo de seis a vinte e quatro meses, observados:

I — convênio com instituição de ensino ou de formação profissional do país de origem;

II — comprovação de seguro de saúde e de acidentes pessoais com cobertura no território nacional;

III — curso obrigatório de língua portuguesa e de legislação trabalhista, sanitária e ambiental;

IV — enquadramento nas formas legais de estágio, de aprendizagem ou de contrato de trabalho, vedada qualquer modalidade de atividade sem amparo legal;

V — registro em sistema estadual de acompanhamento, com identificação da entidade receptora e do responsável técnico.

§ 1º A entidade receptora responderá pela moradia, pela alimentação, pelo acompanhamento técnico e pelo cumprimento da legislação trabalhista e sanitária.

§ 2º O Estado poderá custear bolsa de formação, auxílio-transporte e curso de língua, observados os limites orçamentários.

Art. 62. A modalidade de envio concederá bolsa estadual a jovens gaúchos, com prioridade aos egressos da Rede Estadual de Educação Agroindustrial, e exigirá:

I — plano de formação previamente aprovado;

II — contrapartida de retorno ao Estado por período mínimo equivalente ao da bolsa;

III — apresentação de relatório técnico e de transferência de conhecimento à rede de ensino e às cooperativas.

Art. 63. O Estado não concede visto, não autoriza residência e não regula a entrada de estrangeiros, matérias de competência da União. A atuação estadual limita-se à celebração de convênios, ao custeio, à recepção, ao acompanhamento e à instrução de processos junto aos órgãos federais competentes.

Art. 64. O Estado expedirá certificado de formação agroindustrial aos participantes, e buscará o aproveitamento de créditos e o reconhecimento recíproco de estudos no âmbito dos acordos de acreditação regional do Mercosul, observados os procedimentos nacionais de reconhecimento de títulos.