Naqueles tempos, a Justiça corria ligeiro. E eu, conhecendo os costumes da devedora, sabia que ela guardava em casa uma estátua curiosa: um “Diabo”, em santuário de madeira, pintado em vermelho vivo, objeto de adoração e respeito por parte dela. Pois não tive dúvidas: pedi ao juiz a penhora do Diabo.
E não é que foi deferido? O oficial de justiça lavrou o auto em 18 de fevereiro de 2002, descrevendo com toda formalidade:
“Uma estátua do Diabo, em miniatura de santuário, cor predominante vermelha, avaliada em R$ 666,00.”
O curioso é que a dívida era de R$ 612,72. Ou seja, o Diabo não valia nem um sétimo do que se devia. Ainda assim, a lei é a lei: se não houvesse pagamento, a estátua iria para o leilão judicial, com possibilidade de algum interessado arrematar o próprio “capeta” em praça pública.
Mas a história mudou de rumo. Antes do pregão, na audiência de conciliação, a parte devedora resolveu quitar o débito. Pagou tudo, centavo por centavo, e o Diabo foi salvo do vexame de ser vendido como sucata processual.
E assim o “coisa-ruim” escapou de ser transferido por escritura pública e homologação judicial a um eventual comprador. Ficou no seu altar, vermelho e negro, intocado.
Esse causo, embora pareça invenção, está registrado em autos oficiais, com número de processo, certidões e tudo o mais.
E não deixa de ser simbólico. Desde sempre, aprendemos a distinguir o Bem e o Mal. De um lado, Deus, seus anjos, os santos, os milagres, a solidariedade, a justiça. De outro, o Demônio, os feiticeiros, as trevas, as guerras, a fome, os vícios.
A humanidade segue nesse fio de navalha: uns caminham pela luz, outros se perdem nas sombras. O livre-arbítrio nos foi dado para escolher o lado em que vamos lutar.
Eu já escolhi o Bem.
E você?
Porque, acredite: o Diabo pode escapar do leilão… mas a luta entre o certo e o errado continua todos os dias.

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